Alívio Temporário

A tríplice crise entra em fase de aprofundamento, pelo andar e inter-relacionamento de suas dimensões

Por José Francisco Lima Gonçalves

Abril trouxe melhoras nos mercados globais e aqui não foi diferente. De um lado, o andamento da pandemia pelo mundo foi mais benigno, ao menos na preparação da saída do isolamento social em diversos países. As notícias sobre a China são as mais eloquentes, mas inclusive na Europa, algumas mudanças de direção impressionam.

De outro lado, a forte reação de diversos organismos e bancos centrais, em ações de ordem fiscal e em medidas de políticas monetárias fortemente expansionistas (inclusive o programa de swaps de dólar entre o FED e alguns BCs) animou investidores, apesar da brutal contração na atividade.

As bolsas tiveram altas relevantes, devolvendo parte das perdas de março, o que ocorreu também com ativos como o petróleo, apesar do preço negativo do WTI para maio. O dólar perdeu algum valor em relação às principais moedas e reduziu seu ganho sobre as moedas emergentes.

Maio, porém, começou com outra aparência. O retorno de Trump para posições agressivas em relação à China, na questão comercial e no tema do coronavirus, sinaliza estratégia de combate aos efeitos diretos e indiretos da pandemia sobre o eleitorado americano. A “pacificação” da disputa comercial em janeiro mostra-se como interregno oportunista. No campo econômico, os dados negativos de atividade e emprego vão manter o ambiente tenso, e os governos não terão muito o que anunciar.

Aqui o Ibovespa subiu, os juros tiveram leve queda e o dólar ganhou valor contra o real. Abril foi o mês em que os indicadores de expectativas, aqui e no resto do mundo, consolidaram níveis inéditos de piora e forçaram revisões profundas nas estimativas em geral.

E o ambiente em abril foi difícil no Brasil. O conflito entre o presidente e seus ministros da Saúde acentuaram a divergência entre os partidários do isolamento social, com ênfase em governadores, e os favoráveis à abertura da atividade econômica, empresas e autônomos, majoritariamente, além do presidente e seus seguidores. O risco claramente perceptível é o aprofundamento da crise sanitária nas próximas semanas. O contraste entre as duas visões não deve ser resolvido sem piora adicional.

Ainda na esfera política, a demissão de Moro, e a maneira pela qual essa se deu, acrescentaram elemento de acirramento da crise entre os poderes, pois acompanhada de decisões judiciais vistas como desfavoráveis ao presidente. Os temas ligados a processo de impeachment ou de processo do presidente por crime comum passaram a ser referência para qualquer cenário.

Não se pode descartar a importância das agressões a repórteres e profissionais da saúde por manifestantes em atos a favor de Bolsonaro e contra o Congresso e o Poder Judiciário. A tríplice crise entra em fase de aprofundamento, pelo andar e inter-relacionamento de suas dimensões.

Em relação à economia, a existência de um “plano” de investimentos públicos arrepiou os mercados e abriu leque de opções de sobrevivência ao Planalto.

As tensões políticas não têm impedido que os pacotes fiscais de emergência passem pelo Congresso e atinjam seu – parco – objetivo. Resta saber como tal processo vai caminhar com a deterioração das condições econômicas nos próximos meses, com as respostas que ministros militares são instados a dar e com a parceria estabelecida entre Executivo e o Centrão.

O impulso dado aos mercados mundiais pelas reações dos governos e bancos centrais pode chegar à economia. Mas pode limitar-se a manter os preços dos ativos onde estão.

O “formato” da recuperação da atividade, em “V”, “U” ou “L”, não está determinado, nem aqui, nem lá fora. A maior parte dos analistas enxerga o primeiro formato, enquanto nós vemos o último.

Cabe deixar claras as hipóteses por trás de cada caso. Uma recuperação em “V” pressupõe a “volta à normalidade” a partir do terceiro trimestre deste ano, em grau “relevante”, de modo que a economia estaria andando a 2% no fim do ano. Assim, a queda de produto este ano, entre 3% e 5%, seria seguida de alta semelhante em 2021.

A modestíssima recuperação entre 2017 e 2019 deveu-se à queda da inflação e seu efeito sobre a renda geral, alguma recuperação do consumo das famílias, alguma retomada do crédito às famílias, e recuperação precária da ocupação. Nada disso parece estar à vista nos próximos trimestres.

“Voltar à normalidade” é um desejo quando se entra em crise profunda. Na situação atual, o sonho se esgota no orçamento. O governo parece entender que a política fiscal vai retornar à trajetória anterior à recessão, tendo apenas que “digerir” os efeitos dos gastos “extraordinários” ligados diretamente à pandemia.

Tal visão se deve à convicção ainda generalizada a respeito da forma que o teto de gastos públicos assumiu por aqui e de suas relações com a “reforma do Estado” proposta desde 2016. Busca-se ver a política fiscal como gregoriana, tentando separar este ano do próximo, a não ser pela consideração de outra trajetória da relação dívida/PIB.

Se assim for, a política fiscal será fortemente contracionista em 2021. Vamos repetir o ajuste 2017-2019 e enxugar gelo, acreditando que o gasto público deve ser acessório em relação aos investimentos privados, que as privatizações vão reduzir a dívida pública e que o setor privado vai investir em infraestrutura desde que as condições de risco institucional melhores. Mas três anos de pífio crescimento em meio a reformas “exitosas” fizeram pender ainda mais a balança para a denúncia do ajuste fiscal contracionista.

Em 2008, a interrupção da deflação exigiu endividamento público, o que justificou o aprofundamento da contração fiscal que se seguiu. Mas o aumento da dívida pública viabilizou a retomada da economia, em forma de “V”, ao estabilizar os mercados financeiros.

Em 2008, estávamos em meio a um ciclo de commodities global e um ciclo de duráveis de consumo doméstico. Voltar a eles foi fácil.

*José Francisco Lima Gonçalves é economista-chefe do Banco Fator e professor do Departamento de Economia da FEA-USP.

**Texto originalmente publicado no Valor Econômico em 12/05/2020.