A pandemia escancara nossas desigualdades no mercado de trabalho (1)

Por Nelson Marconi

Na semana passada o IBGE divulgou as estatísticas referentes ao desemprego e demais indicadores do mercado de trabalho para o mês de junho. À primeira leitura, o desemprego e o número de desocupados subiram menos que o senso comum poderia esperar. Mas na verdade uma leitura mais atenta dos números mostra que o impacto da epidemia sobre o mercado de trabalho é muito intenso e, principalmente, muito desigual; e que a importância do abono para evitar uma tragédia maior tem sido considerável.

A taxa de desemprego fechou em 13,3% em junho e o número de desocupados até se reduziu no segundo trimestre em relação ao anterior. Esse fato, aparentemente incoerente, se deve à definição metodológica de “pessoas desocupadas”, utilizada não só no Brasil como em todos países:  são os indivíduos que não estão trabalhando e procuraram emprego nos últimos 30 dias.  Se a pessoa não está trabalhando e não procurou emprego, ela está fora da força de trabalho. Por isso, outros indicadores refletem melhor a situação do mercado de trabalho neste momento.

O primeiro deles é a queda acentuada do número de pessoas ocupadas: houve uma redução de 8,9 milhões no segundo trimestre em relação ao primeiro, sendo que 68% dessa diminuição ocorreu entre os trabalhadores informais; é o menor nível de ocupação da série histórica que se iniciou em 2012. Muitas pessoas passaram a integrar a chamada força de trabalho potencial, que corresponde, fundamentalmente, às pessoas que gostariam de estar trabalhando. Esse contingente aumentou 5,2 milhões no segundo trimestre e, juntamente com os desocupados, correspondem a 26 milhões de pessoas, representando 24% da denominada força de trabalho ampliada. Se adicionarmos aqueles que gostariam de estar trabalhando mais horas, chegamos a 32 milhões de pessoas, ou 29% de tal força de trabalho ampliada (ocupados, desocupados e aqueles que gostariam de trabalhar, mas não procuraram uma ocupação). São todos números recordes para a série. Nota-se, portanto, ao contrário do que indica apenas a taxa de desemprego, uma deterioração aguda e rápida do cenário no mercado de trabalho.

Isso já sabíamos, infelizmente. O que nos resta é entender a real dimensão desse impacto sobre os trabalhadores. O IBGE vem produzindo uma importante e oportuna pesquisa sobre o impacto da epidemia no mercado de trabalho, a PNAD Covid-19. A metodologia é diversa da PNAD usual, portanto os números absolutos não são iguais; mas a pesquisa traz dados pormenorizados sobre o comportamento do mercado de trabalho durante a pandemia. Vamos utilizar os dados referentes a junho, pois ainda não há informações tão detalhadas (os chamados microdados) para períodos posteriores.

A pesquisa revelou que os motivos principais para 2/3 das pessoas que gostariam de ter trabalhado na semana anterior à pesquisa não terem procurado uma ocupação são a pandemia e a falta de trabalho na localidade. Diante desse fato não resta dúvida: o vírus e a pandemia são os grandes responsáveis pela explosão da força de trabalho potencial no país.

Mas além do aumento da desocupação e da chamada força de trabalho potencial, a pandemia impactou de maneira relevante até mesmo as pessoas ocupadas, como revelam outros dados. E eles evidenciam ainda mais as desigualdades do mercado de trabalho, pois são bastante diferenciados entre os ocupados formais e informais. Descrevo alguns exemplos e a tabela ao final do texto propicia uma análise mais completa. Primeiro, nota-se que apenas 15% dos ocupados que estão em home-office são informais; é gritante a diferença (superior) do índice médio de escolaridade desse grupo em relação a todos os demais analisados[1]. Portanto, o home-office só foi adotado para os trabalhadores mais qualificados e formais. Segundo, dentre os afastados devido ao isolamento social que continuam sendo remunerados, apenas 11% são informais.

Todos os grupos sofreram uma redução em seus rendimentos oriundos do trabalho após o início da pandemia, associados à redução do número de horas normalmente trabalhadas, mostrando que os impactos são significativos tanto sobre as ocupações como sobre os rendimentos. A queda é maior para aqueles que estão trabalhando em local distinto do que atuavam antes, possivelmente porque são as pessoas que tiveram de buscar o exercício de outras atividades ou em locais nos quais seria possível prosseguir exercendo suas atividades. A possiblidade dessa flexibilidade estar associada à precariedade é elevada. Dentre os que continuaram a receber suas remunerações, novamente o índice médio de escolaridade é mais alto, mostrando que os mais protegidos foram aqueles que exercem as atividades que demandam maior qualificação.

A ampla maioria dos informais passou a depender do auxílio emergencial. Nota-se que há uma correlação elevada entre os que moram em domicílios que recebem o abono e aqueles que estão na informalidade, bem como entre os primeiros e aqueles que deixaram de receber remunerações (nada garante que sejam as mesmas pessoas, mas a correlação é bastante significativa). Além disso, dentre os não ocupados e que não procuraram emprego, mas gostariam de estar trabalhando, 69% reside em domicílio em que alguém (incluindo o próprio entrevistado) recebeu o auxílio emergencial; entre os desocupados (isso é, aqueles que procuraram emprego), esse percentual atinge 63%. Portanto, tudo indica que o auxílio tem sido bem direcionado aos mais pobres, que constituem seu público alvo; não parece haver um “vazamento” relevante do seu público alvo, além dos já conhecidos casos de fraude, que é um caso de polícia e não um problema do desenho da política. A extensão do benefício deveria ser ampliada, na verdade, e extingui-lo irá piorar as condições já ruins das pessoas que mais sofreram os impactos da pandemia no mercado de trabalho.

Assim, os dados mostram que tal impacto tem sido bem mais intenso para os que são menos escolarizados e estão no mercado informal, escancarando as desigualdades previamente existentes e aprofundando-as.

Para finalizar, os resultados mais recentes divulgados pelo IBGE, que não incluem ainda a disponibilização de novos microdados, vêm indicando um afastamento devido ao isolamento social cada vez menor das pessoas do mercado de trabalho nas últimas semanas. Enquanto na primeira semana de maio 19,8% das pessoas ocupadas estavam afastadas por tal motivo, esse percentual caiu para 7,5% na terceira semana de julho. Esse movimento é positivo? Por enquanto não me parece, pois é resultado da negação do governo federal das consequências da pandemia, que tanto desincentiva a adesão a uma quarentena definita quanto estimula que as pessoas interpretem a pandemia como uma “gripezinha” inofensiva. Um verdadeiro crime. Essa queda do isolamento social também é resultado dessa desigualdade no mercado de trabalho aqui ressaltada, e que não se reverte no curto prazo. Pensando no futuro, urge que essas desigualdades sejam atacadas a partir de agora.

Algumas perguntas ficam: seria possível que o impacto fosse diferente? Como atacar essa brutal desigualdade? O problema não seria a escolaridade reduzida da população? A resposta a estas questões virá em uma segunda parte desse artigo, no qual serão analisadas mais detalhadamente as profissões, os setores que predominam no mercado de trabalho e os impactos da pandemia sobre cada grupo específicos de trabalhador. 

Impactos da Covid- 19 no mercado de trabalho em junho de 2020

Fonte: PNAD Covid-19, IBGE, com cálculos do autor

*Nelson Marconi é professor da FGV e pesquisador visitante na Harvard Kennedy School.


[1] O índice médio de escolaridade corresponde a uma média simples das respostas dos entrevistados á pergunta do IBGE sobre sua escolaridade, que vai de zero (sem instrução) a oito (pós-graduação completa). Não reflete, portanto, o número médio de anos de estudo.

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