Há branco empobrecendo? Toca racismo!

Não resolve, mas ajuda bem

Por Paulo Henrique Rodrigues Pereira

Sai década e entra década, de vez em quando o mundo se lembra da monstruosidade do racismo americano. Cartazes assustados ganham as ruas, e as mãos perplexas que os carregam buscam compreender como a nação mais rica do mundo ainda vive como se estivesse nos tempos da escravidão, em que a vida humana valia algo como algumas sacas de algodão. Nos tornamos uma massa de indignados, revoltados pelas ruas, como se estivéssemos vendo um velho fantasma em um casarão decadente no Sul dos Estados Unidos – talvez no Mississipi, ou no Alabama. E sempre nos fazendo a pergunta errada: como isso ainda pode acontecer? O que não percebemos é que o racismo é vivo e moderno. É parte ativa da resposta populista à destruição do sonho americano. Há branco empobrecendo, perdendo renda, vivendo mal? Toca racismo! Não resolve, mas ajuda bem.

O racismo tem a ver com a escravidão, mas também tem muito a ver com a liberdade[1]. Não é apenas uma construção histórica, herança do passado. Os Estados Unidos começaram a abolir a escravidão por volta dos anos de 1770, através de uma estratégia pela qual se libertava o filho da escravizada, que ficava vinculado (antes mesmo de ter nascido) a uma obrigação de servir ao senhor de sua mãe por um período de tempo – em geral algo que oscilava entre 18 e 28 anos. É o tal do ventre livre, que acabaria por ser copiado no Brasil quase um século depois. Essa primeira abolição aconteceu nos estados do Norte, que tinham um contingente de pretos e escravizados inferior ao do Sul. No censo de 1800, Massachussetts apresentava 1,5% de população negra, enquanto New Jersey registrava 8% – para dar os dois exemplos extremos no Norte. No Sul, os números desse contingente eram bem maiores: Geórgia, Carolina do Sul e a Virginia tiveram populações escravizadas superiores a 40% no começo do mesmo século.

Com a sua emancipação gradual, os estados do Norte entraram orgulhosos no século XIX. Tinham mostrado às Américas que eram capazes de desmontar o horripilante sistema da escravidão, embora ainda tivessem milhares de escravos nos seus territórios. Mero detalhe. O problema é que o tempo sempre passa. E no começo dos anos de 1800, os primeiros abrangidos pelas leis de liberdade terminaram seus períodos de servidão forçada, tornando-se livres. E lá se foi o sonho da república perfeita americana, saxã, protestante, e principalmente branca. Os jovens afrodescendentes queriam votar, ter direitos, empregos e acesso. Para completar o cenário, gigantescos grupos de novos imigrantes chegavam a cada ano. Irlandeses, italianos, ingleses, alemães, etc. Todos expulsos pela revolução industrial europeia, tirados de suas terras pelo direito liberal; esvaziados de parte da sua renda pela avalanche dos artigos baratos saídos das novas fábricas. Brancos, pobres de um lado. Pretos, sedentos por liberdade e acesso, de outro. No meio, o hábil sistema político americano.

Bastava olhar para as prisões, estavam cheias de negros. As suas mentes não eram competentes para votar; não eram de confiança. Estavam degradados, e talvez um dia até poderiam chegar a um grau mínimo de inteligência e virtude. Até lá, entretanto, deveriam ser excluídos da vida política. Essas palavras naturalmente não são minhas. São de um tal Samuel Young, congressista presente na Assembleia que votou a Constituição do Estado de Nova York em 1821[2]. Suas ideias são menos excepcionais do que gostaríamos. Com sua defesa, Nova York restringiu direitos de votos aos pretos. O estado não estava sozinho, Nova Jersey já o havia feito em 1807. Depois, Rhode Island (1822), Connecticut (1818) e a Pennsylvania (1838), para dar alguns exemplos. No Sul, a coisa era pior. Pretos livres eram impedidos de ter propriedade, de se casar com brancos ou mestiços, e, em alguns casos, eram expulsos dos seus estados natais, embora fossem americanos de nascença.

Atacar os pretos era uma forma de ganhar espaço e influência sobre as grandes concentrações de brancos pobres – imigrantes novos ou americanos natos -, e apresentar-lhe alguma certa noção de privilégios. Além disso, tinha a excelente qualidade de dividir os novos proletariados formados na explosão industrial americana. Tal estratégia foi fundamental para o crescimento do Partido Democrata naquele começo do sistema representativo americano. Discurso bem feito, votos garantidos.

Em meio à pandemia, manifestantes tomaram as ruas dos EUA.

A história, sabemos bem, tem suas ironias e repetições, e cá estamos novamente. O vento tem soprado ao oriente. O emprego industrial, bom pagador e pouco exigente, também tem mudado de ares, e levado consigo o sonho americano. Aquela velha história do garoto do Highland Park, que começa a trabalhar na fábrica da Ford com seus vinte e poucos anos, compra duas casas, viaja todo ano, e coloca três filhos no college, já não é mais tão comum. Os filhos, embora tenham estudado mais do que o pai, não conseguem mais reproduzir a qualidade de vida que tiveram quando eram crianças. Não há mais lugar para o cidadão de classe média. A estabilidade do emprego para a vida, da manutenção do seguro saúde, da previdência privada, também vão ficando mais na lembrança do que no contracheque do operário americano. A elite sobrevive, e os mais educados são os favorecidos do processo. Junto com o deslocamento industrial, o ciclo de financeirização aumenta as desigualdades.

A renda[3] média dos brancos em 1968 nos Estados Unidos era de U$ 43.735. A mediana – cálculo que despreza os extremos, portanto, que capta melhor o que as pessoas ganham na maior parte das vezes – era de U$ 39.752. Diferença mínima, o que demonstra pequena desigualdade entre os brancos na época. Um cidadão branco mediano ganhava 90,89% da renda média dos brancos em geral em 1968, uma diferença de U$ 3.900. Em 2018, enquanto a média de renda dos brancos foi de U$ 63.600, a mediana foi de U$ 43.413. Ou seja, em geral um branco mediano ganha 68,26% do que a renda média dos brancos, uma diferença de cerca U$ 20.000. Cinco vezes maior do que há meio século. Não se importe com inflação, todos os valores estão atualizados para dólares de 2018.

Por aqui, o argumento já pareceria razoável. Mas vale ainda olhar para as diferenças entre brancos e pretos, fixando como critérios os salários medianos. Em 1968, pretos ganhavam 53% (U$ 21.053) do que ganhavam os brancos (U$ 39.752). Em 50 anos, essa diferença caiu. Em 2018, os pretos ganharam 72% do que recebiam os brancos, uma diminuição de mais de 30%. No Sul dos EUA, esses números são ainda mais marcantes. Os pretos, que ganhavam apenas 52% do que ganhavam os brancos sulistas em 1968, passaram a ganhar 74% em números de 2018. O movimento, embora menos acentuado, também aparece nas diferenças entre salários médios de brancos e pretos (58% em 1968 para 65% em 2018).

Esses números podem parecer sem importância, pequenos, ou pouco reveladores. Desigualdades, entretanto, importam. Os brancos pobres estão mais distantes dos brancos ricos, o que denota que provavelmente tem mais dificuldades em disputar espaços, produtos e serviços. Sentem pressão por cima, pois não alcançam mais o pico da montanha. A pressão, entretanto, também vem por baixo. Pretos estão mais próximos, o que provavelmente indica que também estão disputando mais oportunidades, e os mesmos produtos e serviços. As relações de poder mudam. Seguramente, o branco pobre não acessa mais a vida que era possível há pouco, e é bastante provável que comece a ver uma nova geração de pretos ascendendo, tomando lugares (universidades, empregos, novos bens) que talvez ele entendesse como seus de direito. Isso gera uma sensação de perda, de desconcerto do mundo: prato cheio para os populistas que, com pouca dificuldade, atribuem os insucessos das classes medias à “festa danada” das minorias. O que são políticas de justiça social, de reparações históricas, tornam-se favores, sistemas de privilégios nesse discurso.

O ciclo ocidental vai perdendo força, e as desigualdades se avolumam. No discurso político americano, isso se organiza como uma crítica à globalização e à perda da identidade americana. As elites intelectuais (progressistas) e financeiras são os alvos porque, nessa visão, são as responsáveis pela internacionalização econômica (globalismo) e a ascensão das minorias. Focados na aparência e na contingência, e esquecendo a estrutura dessa transformação, o discurso racista aprendeu como ser útil em pleno século XXI: atacar o acesso das minorias. Os velhos braços do preconceito se esticam para abraçar e ninar a classe média branca americana, atribuindo a culpa pelos insucessos geracionais aos latinos, pretos e demais grupos historicamente subordinados. Esconde-se com isso a crise do capitalismo ocidental, e americano especialmente. O racismo tem muitas razões e sentidos, e parte dessas origens estão construídas no passado mais constitutivo da sociedade americana. Isso não o impede de também ser moderno, de seguir operacional, vivo, e mais atual do que nunca. Não mora só na casa decadente do Sul; provavelmente habita também imponentes edifícios de Manhattan.

* Paulo Henrique Rodrigues Pereira é doutorando em História do Direito na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco (USP) e pesquisador Visitante na Universidade de Harvard (History-FAS e Afro-Latin American Research Institute).


[1] O recente livro dos professores Alejandro de La Fuente e Ariela Gross analisa a construção da noção de negritude na transição da escravidão para a liberdade. Becoming FreeBecoming Black: Race, Freedom, and Law in Cuba, Virginia, and Louisiana

[2] Os debates dos anais da Constitutional Convention encontram-se disponíveis na seguinte base. A fala de Young pode ser lida na página 105 e ss. https://babel.hathitrust.org/cgi/pt?id=njp.32101064096488&view=1up&seq=105

[3] Informações extraídas dos censos americanos. Dados em https://www.census.gov/data/tables/time-series/demo/income-poverty/historical-income-people.html