O vírus deve estar dando risada

Por Nelson Marconi, economista e professor da FGV.

Nossa economia vem titubeando para se recuperar da recessão há pelo menos três anos. Crescemos, em termos per capita, apenas 1,3% neste período. E continuaremos nessa toada, gerando empregos cada vez mais precários, se não houver o reconhecimento de que precisamos de uma estratégia nacional de desenvolvimento. O que o governo tem feito, até agora, é o contrário, acabar com essa possibilidade. E por que precisamos de uma estratégia com essas características? São vários fatores, mas vou elencar aqui apenas três deles.

1. A perda de nosso tecido produtivo e da qualidade dos empregos

A tabela abaixo mostra a evolução da participação percentual de cada setor no total de ocupações (conceito mais amplo que emprego) no Brasil entre 2010 e 2017, e o valor da remuneração média anual em cada um destes setores em 2017 (último ano da publicação dos dados pelo IBGE). Nota-se claramente que praticamente metade das ocupações encontra-se nos setores de serviços de baixa intensidade tecnológica (seguindo a classificação da OCDE) e que recebem, por consequência, baixas remunerações. Além disso, a participação das ocupações nestes setores tem crescido em substituição aos postos de trabalho de mais alta remuneração. Em contrapartida, os setores mais dinâmicos da economia (indústria de transformação de média-alta e alta tecnologia e serviços modernos) exibem pequena participação na ocupação, e ainda por cima decrescente nos últimos anos.

A depender apenas do mercado, os recursos continuarão se direcionando aos setores com maiores vantagens comparativas, que não são, no caso brasileiro, os mais dinâmicos citados acima. O que se vê no mundo inteiro é a retomada de políticas industriais que estimulem os ganhos e a rentabilidade dos setores que são mais importantes para cada economia, seja em relação à geração de tecnologia ou em relação à geração de empregos de qualidade, de modo a expandir a chamada classe média.

2. A mudança na nossa pauta de exportações

                Um outro fator que explica nossa mudança na estrutura produtiva é a composição de nossa pauta de exportações. A história mostra que os países que mais se desenvolveram ampliaram a participação de bens manufaturados (industrializados) em suas vendas externas. O gráfico abaixo mostra que fomos bem sucedidos nessa tarefa até 1980, justamente o período que mais crescemos. Hoje voltamos a ter mais de 50% da pauta de exportações concentrada em produtos primários, fato que não acontecia desde 1978. Estamos nos reprimarizando, isso é, voltamos a exportar proporcionalmente mais produtos primários. O problema, neste caso, é que os setores que produzem e exportam esses bens não conseguem gerar empregos com bons salários, ou um número razoável de ocupações (indústria extrativa) que absorva a população que precisa ingressar no mercado de trabalho.

3. A ausência de políticas para lidar com esses e outros problemas

O que o governo vem fazendo? Abrindo mão, de forma simplória e baseada em um discurso sem fundamento empírico, de qualquer intervenção do Estado na economia. Em outras palavras, está abrindo mão de uma estratégia de desenvolvimento que associe ações públicas e privadas, que se faz necessária, especialmente, para um país em nosso estágio de estrutura produtiva e renda per capita. Neste momento, precisamos de uma estratégia que estimule o setor privado a direcionar seus investimentos às áreas que gerarão os melhores empregos e possibilite a qualificação dos trabalhadores para atuar nestas áreas, isso é, que possibilite ao setor privado ver, nesses setores relevantes, oportunidades interessantes de expansão de lucros e dessa forma decidam ali investir. Em suma, que o setor privado se interesse por invesimentos em áreas que possibilitem a expansão da classe média, da mesma forma como a indústria o fez no passado.

O governo pratica um mantra segundo o qual bastam as reformas para resolver nossos problemas. Para exemplificar, acabei de ver o Secretário de Política Econômica dizendo que dependemos da aprovação das reformas para solucionarmos a pandemia do coronavirus, enquanto os demais países estão ampliando os gastos com a saúde pública neste momento. O vírus deve estar dando risada.

Definitivamente, não é dessa forma que retomaremos o crescimento. Vamos ver por quanto tempo o governo vai aguentar prosseguir nessa ladainha. Nossos problemas estruturais demandam medidas bem mais amplas e práticas do que o discurso das reformas como a salvação da lavoura. Por isso, vamos, no presente espaço, buscar discutir alternativas para sairmos do imbróglio em que nos encontramos.