A importância da indústria na resposta à epidemia do coronavírus

Por João Prates Romero, professor de Economia do Cedeplar-UFMG

Com o avanço simultâneo da epidemia de COVID-19 sobre a maioria dos países do mundo, os sistemas produtivos dos diferentes países se viram confrontados com um importante desafio: responder à grande demanda emergencial por respiradores e material de proteção hospitalar.

Responder a esse desafio esbarra em dois problemas: (1) a dificuldade/impossibilidade de importação desses bens e dos insumos requeridos para sua produção; e (2) a dificuldade de produção desses bens, em função da estrutura produtiva existente no país e das capacidades produtivas associadas a essa estrutura.

Para superar esses dois desafios, economias estão sendo obrigadas a recorrer à reconversão industrial, ao planejamento e à substituição de importações.

Em alguns países, a capacidade produtiva existente se mostra mais adequada ao suprimento desses bens. Conforme mostram as Figura 1 e 2, a China, Singapura, Alemanha e Austrália estão entre os maiores exportadores de respiradores, e exportam mais do que importam desses bens. Dessa forma, o redirecionamento das exportações desses produtos para o suprimento da demanda emergencial doméstica facilita a resposta à crise do COVID-19. Além disso, nesses países é mais fácil o aumento da escala de produção pra atender à demanda emergencial.

Figura 1: Exportação de respiradores e outros equipamentos similares (2017)

Fonte: Observatory of Economic Complexity.

Alguns países, embora sejam grandes exportadores de respiradores, como é o caso de Estados Unidos, França e Holanda, têm importação desses bens superior às suas exportações, o que indica uma maior dificuldade para a provisão imediata desses bens.

Figura 2: Importação de respiradores e outros equipamentos similares (2017)

Fonte: Observatory of Economic Complexity.

O Brasil, por outro lado, assim como a maioria dos países subdesenvolvidos, exporta uma proporção muito pequena do total mundial de 7,29 bilhões de dólares comercializado nesse setor: apenas exporta 0,15%. Por outro lado, a importação desses bens pelo Brasil é de 0,58% do total mundial, o que indica que a produção doméstica, mesmo em tempos normais, não seria capaz de suprir totalmente a demanda.

Além disso, a dependência de insumos para a produção desses bens é um empecilho adicional. Segundo estudo realizado por Paulo Morceiro em 2019, o setor de Informática, eletrônicos e ópticos, no qual está inserida a produção de respiradores, passou de um coeficiente de importação de 57,4% em 2004 para 75,4% em 2014. Ou seja, ainda que haja produção doméstica desses bens, a dependência de componentes importados é elevada, de forma que a produção interna desses bens requer também um processo de substituição de importações de alguns dos componentes, que provavelmente também terão seu comércio impactado pela epidemia.

Em função da grande demanda por respiradores e outros equipamentos e materiais médicos, sobretudo de proteção (como máscaras, roupas médicas, etc.), cria-se a necessidade de reconverter parte das fábricas de outros setores para a produção desses bens e seus insumos: a chamada reconversão industrial.

Figura 3: Espaço de produto com produtos que a Alemanha é competitiva (2017)

Figura 4: Espaço de produtos com produtos que o Brasil é competitivo (2017)

Fonte: Observatory of Economic Complexity.

Em artigo publicado na renomada revista Science, em 2007, os professores Cesar Hidalgo, do Massachusetts Institute of Technology (MIT), Ricardo Hausmann, de Harvard, e co-autores, usaram dados desagregados de comércio internacional para estimar a proximidade de quase 800 produtos diferentes. Segundo os autores, quanto mais próximos os produtos, mais semelhantes são as capacidades produtivas usadas na sua produção. Usando essas informações, os autores construíram uma rede produtos, chamada de espaço de produtos, apresentando em seguida evidências de que a estrutura produtiva de cada país, ao indicar as capacidades produtivas existentes, condiciona suas possibilidades de diversificação produtiva.

Os espaços de produtos da Alemanha e do Brasil, apresentados nas Figuras 2 e 3, indicam as diferenças marcantes na estrutura produtiva desses dois países. Nessas redes, cada ponto é um produto diferente, sendo que os produtos coloridos são aqueles que cada um dos países produz de forma competitiva. Como pode-se observar, a Alemanha possui uma estrutura produtiva consideravelmente mais diversificada que a do Brasil, e muito mais concentrada na produção de máquinas (em azul) e equipamentos médicos (em vinho).

Seguindo os resultados apresentados por Hidalgo e Hausmann, a estrutura produtiva diversificada de países mais desenvolvidos, como a Alemanha, facilita não só a produção de boa parte dos componentes requeridos para a produção dos bens necessários para combater a epidemia de COVID-19, como torna mais fácil também a reconversão industrial de fábricas de outros setores para a produção dos bens demandados. Afinal, em economias mais diversificadas, o maior número de capacidades produtivas existentes possibilita “saltar” de um produto a outro com maior facilidade dentro da rede do espaço de produtos.

Nos Estados Unidos, por exemplo, Ford e GM iniciarão a produção de equipamentos de proteção hospitalar e respiradores. Além disso, o presidente americano Donald Trump anunciou que irá usar a lei Defense Production Act para guiar a produção industrial americana e priorizar a oferta de produtos necessários pra lidar com a epidemia. Na Europa o mesmo processo vem ocorrendo, e empresas como Ferrari, Fiat e Airbus também ingressaram na produção de respiradores.

No caso do Brasil, por sua vez, ainda que tenhamos uma estrutura produtiva relativamente desenvolvida e diversificada, contando com a produção e mesmo exportação de respiradores, a reconversão industrial de fábricas de outros setores para a produção de respiradores e/ou de seus componentes é mais difícil em função da nossa menor capacidade produtiva. É importante notar que respiradores são produtos de elevada complexidade e alta intensidade tecnológica, o que dificulta ou mesmo impossibilita sua produção e/ou de alguns de seus componentes por países com baixa capacidade produtiva e tecnológica. Para agravar esse quadro, a participação da indústria no PIB brasileiro vem caindo desde 2004, quando tinha participação de 17,8%, e chegou ao seu nível mais baixo em 2019: apenas 11%. O desafio do Brasil para o enfrentamento do COVID-19, portanto, é considerável.

Algumas iniciativas já estão acontecendo, e algumas empresas já iniciaram processos de reconversão industrial. Ambev e Loreal passaram a produzir álcool em gel para ajudar no combate à epidemia, algumas iniciativas estão também buscando expandir a produção de máscaras, a Embraer está realizando reconversão industrial associada à substituição de importações, produzindo componentes de respiradores, e a WEG, uma das principais empresas brasileiras de máquinas e equipamentos, também anunciou que iniciará em breve a produção de respiradores. Tudo isso só ressalta a importância de possuir uma produção industrial ampla e diversificada, sobretudo no setor de alta tecnologia. Contudo, essas iniciativas, ainda que muito louváveis e bem-vindas, são insuficientes em vista da escala do problema que se aproxima.

Para lidar com os desafios gerados pela epidemia, seria necessário um esforço de coordenação e incentivo à produção por parte do governo federal, de forma semelhante ao que os Estados Unidos pretendem fazer, e de preferência em conjunto com governos estaduais e municipais. Seria importante incentivar a produção dos bens necessários, mapeando potenciais produtores e coordenando os esforços nas cadeias de produção.

O viés liberalizante do governo Bolsonaro, porém, dificulta bastante essa resposta. O governo desmontou estruturas de planejamento do Estado como o Ministério do Planejamento e o BNDES, e a lentidão do Ministério da Economia na implementação de medidas de combate à crise parece indicar considerável relutância em abandonar o ideário liberalizante para intervir na economia e coordenar a produção dos bens necessários para reduzir os impactos da epidemia. A cada dia perdido torna-se mais difícil o processo de reconversão industrial necessário para minimizar as mortes por COVID-19 no Brasil. A passividade ideológica do governo pode custar milhares de vidas.